Covid-19 prioridade na fila de UTI gera controvérsia entre especialistas

Covid-19 prioridade na fila de UTI gera controvérsia entre especialistas

Os protocolos de prioridade de pacientes na fila das unidades de terapia intensiva (UTI) são vistos com ressalvas por especialistas. Já entre os conselhos de classe prevalece o entendimento de priorizar os doentes graves com maior chance de sobrevivência. Enfermeiro critica atitude.

Uma decisão que ninguém quer tomar: quem deve receber atendimento em uma UTI enquanto outra pessoa deve ser deixada para trás. Com o estrangulamento crescente de vagas nas unidades de terapia intensiva por conta da crise de saúde provocada pela Covid-19 as opções se reduzem cada vez mais.

Para tentar remediar o problema, enquanto os governos não apresentam solução – alguns mais preocupados com seus mandatos do que com a saúde pública –, estão sendo discutidos protocolos de prioridade para pacientes na fila da UTI. Para muitos especialistas, essa decisão é equivocada.

O enfermeiro e professor de pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Dário Pasche, ouvido pelo Estadão, é contrário a protocolos que possam excluir pacientes que necessitam de UTI. Ele teme que isso banalize uma situação ‘inaceitável’ que poderia ser resolvida com medidas do poder público, como a adoção da fila única e uma coordenação nacional da rede pública. “Há um acordo civilizatório que a vida de ninguém é mais importante”, assinalou.

E vai além: “É muito burocrático e frio, uma resposta inadequada para um sistema como o SUS. Não posso aceitar como correta uma medida que deve ser absolutamente exceção”. Pasche também destaca impactos desse tipo de escolha. “Para um médico, um enfermeiro, é uma experiência mortificadora. Ninguém toma uma decisão dessas sem se afetar profundamente”, concluiu.

Outros especialistas também criticam essa ‘escolha de Sofia’, cobrando das autoridades mais empenho para resolver a questão. Para o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com pós-doutorado em Ética e Saúde e sanitarista, Flávio César de Sá, esse tipo de decisão deve ser tomada apenas em momentos de excepcionalidade. “O melhor a se fazer é não ter de decidir, ter vaga para todos”, disse ao Estadão.

Para o professor, a solução imediata seria ter fila única para UTI (públicas e privadas), pois  ajudaria a evitar cenário tão grave. “A escolha entre um paciente ou outro na UTI em hospital público, sabendo que, do outro lado da rua, tem vaga em hospital privado é muito cruel com a sociedade”, salientou.

Solução paliativa

Enquanto uma alternativa melhor não é aplicada, Flávio César de Sá pondera que o estabelecimento de padrões pode atenuar conflitos e chancelar medidas adotadas pelos profissionais de saúde. “Se não tem nenhum tipo de recomendação, acaba tendo de resolver por questões circunstanciais. É difícil para a equipe médica tomar a decisão caso a caso, sem orientação”, disse.

Pragmáticos, os conselhos e entidades brasileiros que já se manifestaram sobre o assunto entendem que se deve priorizar os pacientes graves com maior chance de sobrevivência e, em segundo caso, os que têm maior expectativa de anos de vida.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) e o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) pensam dessa forma, como revelou o Estadão. Já o Conselho de Medicina do Rio aprovou um documento que determina critérios para internação, mas não fixa norma entre pacientes que precisam de leitos.

Para o professor da Unicamp, ainda que a decisão não seja entre a vida e a morte, mas de quem receberá o melhor tratamento, “não alivia completamente a dificuldade da decisão, nem o sofrimento em ter de tomar uma decisão que certamente vai fazer alguém não ser tão bem cuidado como deveria”.

Sobre o que está sendo adotado no Brasil, Sá disse que as recomendações aqui estão na mesma linha tomada na Itália e nos Estados Unidos. “Quanto mais independente, melhor é a avaliação. Se já está acamado, cai bastante. Se é dependente para comer ou tomar banho, cai mais ainda”, explicou. Além disso, trabalhadores da saúde costumam ter prioridade por terem uma função essencial em um momento de pandemia.

Experiência no exterior

De acordo com levantamento do Estadão, nos Estados Unidos e na Europa, a discussão passou por 'imunidade' criminal de médicos e fila única de leitos. Com um sistema de saúde focado na iniciativa privada, os Estados Unidos já detectam insuficiência de leitos. O departamento de medicina de cuidados intensivos da Universidade de Pittsburgh divulgou em 15 de abril um documento com sugestões de como alocar recursos durante uma emergência de saúde pública. O texto sugere que os médicos que tratam os pacientes não devem tomar decisões quanto à triagem dos infectados. Outro profissional deve assumir a função.

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De acordo com o documento, isso deve ser feito para garantir avaliações individualizadas e neutralizar o efeito negativo das desigualdades sociais que diminuem a expectativa de vida de alguns pacientes. O texto sugere que quem precisar de uma UTI deve ser avaliado com uma pontuação que vai de 1 a 8. Quanto mais baixa a pontuação, maior benefício terá por meio do tratamento intensivo.

Professores da Faculdade de Direito de Harvard e de medicina da Universidade de Pittsburgh foram além e defenderam no The New York Times que médicos tenham imunidade criminal e sejam isentos de responsabilidade civil ao tomarem decisões enquanto durar a pandemia.

Já os países europeus como a Itália, Espanha e Irlanda adotaram uma fila única para tratamento nos sistemas público e privado. O número de leitos é discrepante nos países do continente. A Alemanha possui seis leitos de UTI por 1.000 pessoas, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. O Reino Unido tem cerca de 2,1, a França possui 3,1 e a Espanha 2,4.

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